segunda-feira, 30 de dezembro de 2013

Ano Velho - Ano Novo


«Os anos chegam desprevenidos, sem plano, e começam por tomar informações com os anos que saem. E então, pelas notas colhidas, como um dramaturgo, preparam os seus episódios! Ah! Que diria o Ano Velho, ao partir com as suas malas e as suas rugas, a este Ano Novo que chegava, inexperiente e curioso? Que confidências trocaram, ao encontrar-se nessa misteriosa estrada por onde caminham os dias e os anos, pacientes transeuntes da Eternidade? O Ano Velho recolhia-se: estivera trezentos e sessenta e cinco dias em Portugal: ia enfastiado e embrutecido, percebia-se que ia de cá pela grosseria dos remontes das botas; tinha os dedos queimados do cigarro e trocava o B pelo V; levava o estômago estragado da mesa do hotel; ia ressequido da falta de banhos; palitava os dentes com as unhas; sabia ajudar à missa; assoava-se a um lenço vermelho; perguntava a todo o propósito o que há de novo? E era reformista. Estava alusitanado. - o Ano Novo vinha da frescura do Céu.» (in «As Farpas», Dez. 1871)

segunda-feira, 23 de dezembro de 2013

FELIZ NATAL


«Uma das coisas encantadoras que nos traz o Natal são esses lindos livros para crianças, que constituem a literatura de Natal.
Não falo desses extraordinários volumes dourados publicados pelos editores franceses, em encadernações decorativas como fachadas de catedrais, que custam uma fortuna; contêm um texto que nunca ninguém lê e são oferecidos às crianças; mas realmente servem para obsequiar os papás. Os pobres pequenos nada gozam com esses monumentos tipográficos; apenas se lhes permite ver de longe as gravuras a aço, sob a fiscalização da mamã, que tem medo que se deteriore a encadernação; e o resplandecente volume orna daí por diante a jardineira da sala, ao lado do candeeiro vistoso.Em Inglaterra existe uma verdadeira literatura para crianças, que tem os seus clássicos e os seus inovadores, um movimento e um mercado, editores e génios – em nada inferior à nossa literatura de homens sisudos. Aqui, apenas o bebé começa a soletrar possui logo os seus livros especiais (...) É no Natal principalmente que esta literatura floresce. As lojas dos livreiros são então um paraíso. Não há nada mais pitoresco, mais original, mais decorativo, que as encadernações inglesas: e as estampas, as cores leves e agudas, oferecem quase sempre verdadeiras obras de arte, de graça e de humor.» («A Literatura de Natal para crianças» in Cartas de Inglaterra)


sexta-feira, 15 de novembro de 2013

DEPUTADO


«Sim, talvez um dia, com rasteiras intrigas e sabujices a um chefe e à senhora do chefe, e promessas e risos através de redacções, e algum discurso esbraseadamente berrado - lograsse ser ministro. E então? Seria ainda a tipóia pela Calçada de S. Bento, com o correio atrás na pileca branca, e a farda mal feita, nas tardes de assinatura, e os recurvados sorrisos de amanuenses pelos escuros corredores da Secretaria, e a lama escorrendo sobre ele de cada gazeta da oposição... Ah! que peca, desinteressante vida, em comparação de outras cheias e soberbas vidas, que tão magnificamente palpitavam sob o tremeluzir dessas mesmas estrelas! Enquanto ele se encolhia no seu paletó, deputado por Vila Clara, e no triunfo dessa miséria - Pensadores completavam a explicação do Universo; Artistas realizavam obras de beleza eterna; Reformadores aperfeiçoavam a harmonia social; Santos melhoravam santamente as almas; Fisiologistas diminuíam o velho sofrer humano; Inventores alargavam a riqueza das raças; Aventureiros magníficos arrancavam mundos de sua esterilidade e mudez... Ah! esses eram os verdadeiramente homens, os que viviam deliciosas plenitudes de vida, modelando com as suas mãos incansadas formas sempre mais belas ou mais justas da humanidade. Quem fora como eles, que são os sobre-humanos! E tal acção tão suprema requeria o Génio, o dom que, como a antiga chama, desce de Deus sobre um eleito? Não! Apenas o claro entendimento das realidades humanas e depois o forte querer.»
(A Ilustre Casa de Ramires, p. 442, Imprensa Nacional - Casa da Moeda, 1999, ed. de Elena Losada Soler)

sábado, 5 de outubro de 2013

A Tentação


«Deixe-me resumir, Teodoro, a morte desse velho Mandarim idiota traz-lhe à algibeira alguns milhares de contos. Pode desde esse momento dar pontapés nos poderes públicos: medite na intensidade deste gozo! É desde logo citado nos jornais: reveja-se nesse máximo da glória humana! E agora note: é só agarrar a campainha, e fazer ti-li-tim. Eu não sou um bárbaro: compreendo a repugnância de um gentleman em assassinar um contemporâneo: o espirrar do sangue suja vergonhosamente os punhos, e é repulsivo o agonizar de um corpo humano. Mas aqui nenhum desses espectáculos torpes... É como quem chama um criado... E são cento e cindo ou cento e seis mil contos; não me lembro, mas tenho-o nos meus apontamentos... O Teodoro não duvida de mim. Sou um cavalheiro: provei-o quando, fazendo a guerra a um tirano na primeira insurreição da justiça, me vi precipitado de alturas que nem Vossa Senhoria concebe... Um trambolhão considerável, meu caro senhor! Grandes desgostos! O que me consola é que o OUTRO está também muito abalado: porque, meu amigo, quando um Jeová tem apenas contra si um Satanás, tira-se bem de dificuldades mandando carregar mais uma legião de arcanjos; mas quando o inimigo é um homem, armado de uma pena de pato e de um caderno de papel branco - está perdido.. Enfim, são cento e seis mil contos. Vamos, Teodoro, aí tem a campainha, seja um homem.»
(in O Mandarim, 1880)

domingo, 29 de setembro de 2013

A PERFEIÇÃO


«Calipso segurou de leve o seu ombro robusto:
-Quantos males te esperam, oh desgraçado! Antes ficasses para toda a imortalidade na minha ilha perfeita, entre os meus braços perfeitos...
Ulisses recuou, com um brado magnífico:
- Oh Deusa, o irreparável e supremo mal está na tua perfeição!
E, através da vaga, fugiu, trepou sofregamente à jangada, soltou a vela, fendeu o mar, partiu para os trabalhos, para as tormentas, para as misérias - para a delícia das coisas imperfeitas!»
(«A Perfeição», 1897 in Contos)

sábado, 24 de agosto de 2013

Paris


«Por aqui nada de novo. Esteve cá Luís Soveral, e fizemos um jantar de Vencidos, com bacalhau, na Maison d'Or. Depois houveram cantigas e danças. Agora está cá o Príncipe [o futuro rei D. Carlos]. Subimos com ele à Torre Eiffel - e sicut licet exclamámos: - «É esplêndido!» A torre não dá para mais do que para uma exclamação - mas essa é de dever, e não lha regateámos.»
(Carta a Oliveira Martins, 27 de Agosto de 1889)