sábado, 1 de março de 2014

CARNAVAL - O BAILE DE MÁSCARAS


O salão estava cheio, abafado, de um calor morno que parecia feito de exalações de suor. A luz crua dos lustres de gás feria as cores claras e duras das paredes, da decoração, e ressaltava, fazendo flutuar uma radiação quase espessa. No estrado, o regente agitava furiosamente a batuta, impelindo as vagas estridentes de uma instrumentação grosseira — e uma multidão de paletots, de chapéus altos, de dorsos curvados numa curiosidade sôfrega, concentrava-se em volta do can-can. Artur, excitado, penetrou por entre a massa de gente e esganiçando o pescoço, em bicos de pés, conseguiu ver as francesas: eram quatro e destacavam-se pelos cabelos loiros cor de manteiga; uma delas, baixinha, roliça, vestida de marinheiro, com o chapéu de oleado para a nuca, o pescoço papudo à mostra, os quadris enormes apertados a estalar numa calça branca, saracoteava-se com movimentos que lhe faziam saltar os seios flácidos na camisola azul; outra, leve, esguia, endemoninhada, vestida à húngara, pulava com grandes gestos de magricela, batendo furiosamente o soalho com os altos tacões das botas orladas de peles; uma terceira que estava mascarada de vivandeira, parecia pesada, velha, meneando-se por dever, gravemente; mas a mais admirada era uma bacante, uma grande loira de formas soberbas, que punha nos olhos em redor um vago brilho de concupiscência burguesa. Trabalhavam em fila, numa quadrilha, com quatro mariolas — um pierrot que parecia desengonçado; um chicard que fazia flutuar as abas enormes da casaca grotesca, apanhando-as com gestos torpes, lançando-as para o enorme nariz de papelão com dois tufos de estopa loira sob as ventas; um homenzinho roliço, com um capacete de bombeiro de onde subia um longo penacho escarlate; e o último, um amador português, que trazia um dominó de paninho, e já sem fôlego, debatendo-se como doido, com o capuz caído, mostrava uma guedelha suja, toda empastada de transpiração. Em redor gozava-se. Havia nos rostos uma dilatação lúbrica, hílare, e bravos estalavam às pernadas mais arremessadas.
(A Capital, 1879)